sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Parques e Vida Selvagem - edição de outono

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Foi publicada mais uma edição da revista PARQUES E VIDA SELVAGEM.
Trata-se de uma excelente revista... ainda por cima gratuita!
As traves-mestras desta publicação são a educação ambiental e a conservação da natureza.
A revista PARQUES E VIDA SELVAGEM é produzida trimestralmente pelo Parque Biológico de Gaia.
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Também aqui poderá obter os números anteriores.
Rafael Carvalho / nov2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Plantas autóctones no jardim – Porquê?



Cebola albarrã - Urginea maritima

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O termo autóctone é sinónimo de nativo ou indígena, isto é, diz respeito a todo o ser vivo originário do próprio território onde habita.
O território continental português é ponto de encontro de duas regiões biogeográficas: a Eurossiberiana e a Mediterrânica. Na região Eurossiberiana, inclui-se o noroeste de Portugal Continental, com um clima temperado e chuvoso, fortemente influenciado pelo efeito amenizante do Oceano Atlântico. A Região biogeográfica Mediterrânica, que ocupa a restante parte do nosso território, caracteriza-se por possuir um clima em que as chuvas escasseiam durante o verão. Às distintas regiões biogeográficas correspondem faunas e floras muito próprias, muitas vezes sobrepostas no caso do nosso país por se localizar na franja de transição. No contexto europeu, a localização geográfica de Portugal, ponto de encontro de dois mundos, coloca o nosso país numa invejável posição no que à biodiversidade diz respeito.
Imagem obtida aqui

Existe uma expressão popular portuguesa que afirma “A galinha da minha vizinha é melhor do que a minha”. Curiosamente o dito pode ser pensado ao contrário. As minhas galinhas, para as minhas vizinhas, serão pois melhores do que as delas. Confuso! Dá que pensar…
Votadas ao desprezo por nós, as nossas plantas têm lugar de destaque em paragens distantes. Para os franceses o azereiro (Prunus lusitânica) é o Loureiro de Portugal, para os ingleses o rosmaninho (Lavandula stoechas pedunculata) é a Lavanda portuguesa. E o que dizer do carvalho português (Quercus faginea)?!…
Pinheiros mansos, lódãos, sobreiros, … Arquitetos paisagistas como o arquiteto Ribeiro Teles, são um verdadeiro exemplo a seguir. Com visão de futuro transportam os nossos espaços naturais para o interior das nossas cidades.


Rosmaninho - Lavandula stoechas 


Algumas das nossas espécies autóctones já são entre nós comercializadas, sem que a maioria dos consumidores suspeite sequer de que se tratam de espécies autóctones – medronheiro, folhado, pilriteiro, loendro, rododendro, madressilva, alecrim, murta, loureiro …
Entre herbáceas, plantas de cobertura, arbustos, árvores e trepadeiras, existem contudo muitas outras espécies cujo potencial se encontra desaproveitado: esteva, sabugueiro, roselha, trovisco, sargaço, tojo, sanguinho das sebes, carqueja, lentisco bastardo, catapereiro, jasmim-do-monte, carrasco, vinca, vide-branca, zambujeiro, morangueiro bravo, arméria, roseira brava…
Cada região biogeográfica tem a sua flora característica, capaz de servir de inspiração na hora de construirmos os nossos jardins. Os modelos de jardim importados, exigem muita manutenção. São mantidos à custa de muito dinheiro gasto em água, que não temos, e em adubos. As chuvas na maior parte do nosso território são escassas e irregulares, concentradas apenas numa parte do ano. Os modelos importados abusam dos relvados, quando os nossos prados naturais, limpos e cortados, mesmo que secos no verão se enquadram no ambiente natural da Europa do Sul, onde nos encontramos.
A menos que sejam invasoras, com este texto não pretendo de forma alguma fazer um apelo à irradicação das plantas exóticas dos nossos jardins. Quase todos os dias como batatas. A batata que eu como e nós cultivamos é uma exótica importada da América do Sul. Também da América veio o milho, e como gosto eu de broa! E o que dizer das saborosas laranjas que os portugueses trouxeram do Oriente? Nos passeios que dou pelas cidades que vou visitando, os seus parques e jardins são ponto de paragem obrigatória. Quando visito um jardim botânico, muitas das vezes constituído maioritariamente por plantas exóticas, entro em êxtase. Vinda dos trópicos, como admiro eu a nepentes que lá em casa tenho suspensa na minha cozinha…
Com este texto, pretendo simplesmente chamar a atenção para o desprezo a que têm sido votadas as nossas plantas autóctones. Eu próprio tenho um jardim autóctone e com isso fico satisfeito.
Lestisco-bastardo - Phillyrea angustifolia
Com objetivos produtivos ou ornamentais, plantas existem que não sendo autóctones há muitas centenas de anos convivem entre nós: ciprestes, amendoeiras, oliveiras, figueiras, romãzeiras, laranjeiras, limoeiros. Aliadas às autóctones estas plantas produzem espaços ajardinados bastante equilibrados e agradáveis, respeitadores das nossas paisagens.
É também através das plantas autóctones que os turistas que nos visitam podem reconhecer a singularidade do nosso país. A vegetação natural ajuda a ler o território. É isso que o turista procura quando visita um país estrangeiro. A nossa vegetação nativa deve para nós ser um motivo de orgulho. Os turistas que nos visitam procuram o que de mais genuíno possuímos - as nossas cores, os nossos aromas, as nossas formas. Se quisessem apreciar paisagens tropicais, repletas de palmeiras, não seria Portugal que procurariam. As plantas autóctones respeitam as nossas paisagens e a nossa cultura, produzindo jardins mais autênticos e genuínos. E não nos esqueçamos que as paisagens são tão identitárias para os povos como a sua língua - e como gosto eu de falar português!
A combinação de cores intimamente ligada às estações, os aromas, as texturas e composições vegetais, o relevo e os próprios sons permitem identificar a região onde nos encontramos. Os sabores também não ficam de fora – no verão delicio-me com as camarinhas em pleno litoral arenoso; no inverno embriago-me com os medronhos em pleno Alto-Douro vinhateiro. 
Verdade seja dita que muitas das nossas plantas autóctones são difíceis de obter. Muitos desconhecem as suas potencialidades…. Os circuitos comerciais e de produção, muitas vezes estão sediados em países distantes que desconhecem o potencial da nossa flora. Acredito que se estas plantas fossem parte integrante da flora onde a investigação em floricultura é mais avançada, já há muito estariam difundidas pelos jardins. O facto de continuarmos a valorizar exotismo em regime de exclusividade, também não ajuda.
Nem tudo está perdido. No nosso país existem empresas a dar os primeiros passos na investigação e produção de plantas autóctones. A lisboeta Sigmetum (http://sigmetum.pt/), a funcionar na Tapada da Ajuda, é um exemplo de excelência.

Com recurso à reprodução vegetativa ou através de sementes recolhidas na natureza, os mais aficionados poderão constituir o seu próprio viveiro de plantas autóctones. Evidentemente que esta solução não é para todos.
Habituadas às agruras na natureza, as espécies nativas são muito rústicas. Com apenas um pouco de mimo, florescem abundantemente e apresentam vigorosas folhagens nos nossos jardins. As plantas dos nossos espaços naturais são as que melhor se adaptam às nossas características do solo e do clima.
 
Sândalo-branco -  Osyris alba
Claro que ser autóctone não é um passaporte garantido para a plena adaptação ao nosso jardim. Dentro das plantas autóctones existem plantas adaptadas a diferentes habitats/ecossistemas. Plantas ruderais, rupícolas, ripícolas, resistentes ou não a solos calcários… observando a natureza é necessário escolher a planta certa para o lugar certo. Apesar de autóctone, não me parece ser boa ideia plantar um nenúfar-branco numa floreira de varanda; também não me parece bem plantar um sobreiro no meio de um lago… Um jardim com espécies autóctones no atlântico Gerês, será necessariamente diferente do equivalente no mediterrânico Algarve.
Escolhida a planta certa para o lugar certo, as plantas autóctones após a fase de implantação dispensam a rega. Não há necessidade de fertilizantes nem de cuidados sanitários. Estas plantas desenvolveram ao longo de milhares de anos diversas adaptações ao meio que lhes conferem um elevado nível de resistência a pragas e a doenças. Uma vez plantadas têm a capacidade de se auto-regenerarem. Necessitando de muito pouca manutenção, as plantas autóctones tornam mais sustentáveis os nossos espaços verdes. Acresce ainda que muitas das plantas da nossa flora espontânea têm propriedades medicinais, são aromáticas e/ou condimentares podendo por isso representar mais uma forma de valorizar as potencialidades de cada região.

Os jardins autóctones fomentam a biodiversidade. À riqueza florística adiciona-se a riqueza faunística, pelas relações que as plantas autóctones estabelecem com os animais, fornecendo-lhes alimento e abrigo.
Com recurso às plantas autóctones, as paisagens portuguesas poderão ser ainda mais portuguesas.
Rafael Carvalho / nov2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Plantei um teixo no meu jardim

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Possuo algumas dezenas de espécies de árvores e arbustos autóctones.
Dentro da lógica que estabeleci no meu jardim, começa a faltar espaço para novas plantas.
A inexistência de um teixo (Taxus baccata) constituía porém uma grande falha, agora reposta. São poucos os locais do nosso país onde existem teixos em estado natural - Serra da estrela, Gerês,… Confesso que no seio da natureza nunca tive o privilégio de ver algum.
A quase totalidade das plantas do meu jardim foram adquiridas a custo zero, ora no viveiro da berma da estrada, ora no viveiro do ribeiro mais próximo. Comprado por 3,60€, o teixo que agora apresento é uma exceção.
À semelhança do azevinho, o teixo é uma espécie dioica, existindo plantas femininas e plantas masculinas. Não faço a mínima ideia se me calhou um menino ou uma menina. Não será pois fácil encontrar-lhe um parceiro.
Rafael Carvalho / nov2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Já fiz a poda…

 
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A imagem revela um pormenor da minha ramada. Frente à cozinha, estende-se pelo pátio.
Com a barba feita no inverno, a videira torna-se transparente, permitindo em casa  a entrada dos desejados raios solares. Em tempo de crise, agradeço a luz e o calor do sol. Os raios do astro rei por enquanto ainda não pagam imposto.
Já no verão, cabeleira reposta, agradeço a sombra da ramada. A evapotranspiração dá um contributo adicional para manter a desejada frescura. Ar condicionado pois, mais uma vez a custo zero! E que bem me sabe nas quentes tardes de verão…
Rafael Carvalho / out2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Olhando o céu…

  

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Aproveitei um breve interregno neste chuvoso outono para observar o céu.
Os meus Quercus já há muito têm vontade de o rasgar. Só de pensar que as bolotas que lhes deram origem me cabiam no bolso!...
Relativamente ao nosso território, referia-se Estrabão, geógrafo grego, como a terra das bolotas. As descrições então feitas revelam a profusão e diversidade de quercíneas aqui existentes, fonte de alimento de homens e animais - “...três quartas partes do ano alimentam-se sempre com bolotas secas, partidas e esmagadas, com as quais fazem um pão que se conserva muito tempo...”
A primeira das minhas imagens é de um carvalho roble - Quercus robur. A segunda é de um sobreiro – Quercus suber.
Rafael Carvalho

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pilriteiro (Crataegus monogyna)






 
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Entre monoculturas de pinheiro e eucalipto, a vegetação nativa da Beira Litoral dificilmente consegue sobreviver. No seio das espécies constituintes da vegetação nativa, o pilriteiro contudo revela-se superplástico, adaptando-se com facilidade aos mais diversos ambientes. Nascido e criado na Beira Litoral, não admira pois que os meus olhos se voltassem desde muito cedo para o pilriteiro. Diga-se de passagem que com a sua intensa floração e vigorosa frutificação, difícil é nele não reparar. Quanto aos rubros frutos do pilriteiro, lembram-me as bolas pendentes na árvore de Natal.
Entre os arbustos autóctones, o pilriteiro é dos meus preferidos. Chegado ao Alto-douro onde atualmente resido, o meu encanto pelo pilriteiro redobrou. Sua majestade, altivo no seio dos matos durienses, aqui o pilriteiro é rei e senhor.
Na hora de construir um jardim no Douro, lá coloquei eu os pilriteiros na linha da frente – alguns foram obtidos por transplante, outros por sementeira, no outono. Os exemplares transplantados foram recolhidos, digo salvos, da berma da estrada, em local regularmente rapado pela “brigada da roçadora”.
Pelo seu pequeno porte, o pilriteiro ajusta-se facilmente a todos os espaços. Adapta-se facilmente a diversos climas, a diferentes exposições solares e a vários tipos de solo. Na primavera possui uma intensa floração que alegra os espaços e impregna o ar com o seu doce odor. Os rubros frutos são um consolo para o olhar e uma guloseima para a passarada. O fruto – o pilrito - é comestível e quando passo por um pilriteiro não resisto. Reconheço que para os padrões humanos não se trata propriamente de um petisco mas, em tempo de crise…
A segunda e a última fotografia que ilustra este post foi capturada no meu jardim. As restantes trouxe-as da Ilha dos Amores – Castelo de Paiva.
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Nome vulgar: pilriteiro, pirliteiro, cambrulheiro, escambrulheiro, espinha-branca, cambroeira, espinheiro-alvar, espinheiro-branco, espinheiro-ordinário, estrapoeiro, estrepeiro, abronceiro, escalheiro.
Família botânica: Rosaceae.
Nome científico: Crataegus monogyna.
Distribuição Geral: quase toda a Europa, norte de África e Ásia.
Distribuição em Portugal: Vulgar em todo o território, até 1600 m, mais raro no Sudeste do país.
Habitat: Cresce em sebes, matagais, clareiras, orlas de bosques e galerias ripícolas, tolerando sítios sombrios.
Floração: fevereiro – julho
Características: Arbusto ou subarbusto de 2 a 4 m de altura, podendo contudo atingir os 10 metros. Caducifólio e espinhoso, possui copa arredondada. A casca do seu tronco é castanha e fendida. As suas folhas com pecíolo comprido são simples e alternas, lobadas e sem pelos.
As flores são brancas ou rosadas, reunidas em corimbos. O fruto é um pomo vermelho, com um caroço único e com polpa farinhosa comestível. Os seus frutos amadurecem de setembro a outubro.
Indiferente ao pH, tolera diversos tipos de solo, preferindo contudo solos soltos e frescos. Dá-se bem em climas quentes e resiste bem às geadas.
Pela profusão de flores e frutos é muito ornamental. O pilriteiro promove a biodiversidade no jardim - é uma importante fonte de alimento para larvas de muitas espécies de insetos; os seus frutos são alimento para muitas espécies de aves; é muito atrativo para as aves também pelo abrigo que lhes confere. Utiliza-se para formar sebes espinhosas, defensivas, resistindo bem às podas. É adequado para zonas urbanas poluídas.
Rafael Carvalho / out2012