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O município de Armamar, onde resido, lançou o concurso "Florir Armamar". Pretende-se reforçar a beleza natural do concelho de Armamar ao convidar a população a florir as suas janelas, varandas, portas, jardins e montras (comércio).
Acreditando no Jardim Autóctone enquanto conceito, decidi inscrever o meu jardim nesta iniciativa.
Transcrevo a minha carta de apresentação.
Caros senhores,
começo por me congratular com a vossa iniciativa - Concurso Florir Armamar 2014.
O paraíso é idealizado como um imenso jardim. Se os jardins e os espaços naturais do concelho de Armamar forem valorizados, todos nós estaremos mais próximos do céu.
Pretendo com este email inscrever o meu jardim no referido concurso. Segue em anexo a ficha de inscrição, como várias fotografias do meu jardim. As fotografias referem-se a vários espaços temporais, variando o aspeto do meu jardim com a estação do ano em que a fotografia foi tirada. Outras fotografias e outros aspetos do meu jardim podem ser vistos no blogue que para o efeito criei - http://jardimautoctone.blogspot.pt/.
Não sendo nativo de Armamar, desde cedo o património desta terra me apaixonou, a tal ponto de por aqui ter assentado arrais. De todos os patrimónios, o natural é talvez o menos conhecido e um dos que mais me apaixona. Tenho por autodidatismo estudado a vegetação autóctone do concelho de Armamar (o termo autóctone é sinónimo de nativo ou indígena, isto é, diz respeito a todo o ser vivo originário do próprio território onde habita).
Tendo construído casa há meia dúzia de anos em Aldeia de Cima, não poderia deixar de honrar a vegetação natural do concelho que me acolheu, ocupando a posição principal no meu jardim. As plantas autóctones respeitam as nossas paisagens e a nossa cultura. Não nos esqueçamos que as paisagens são tão identitárias para os povos como a sua língua. Também é isto que os turistas que visitam o Douro procuram.
Quem tem um tojo no jardim?
Eu tenho! Vários, aliás! Tojos, giestas, rosmaninhos, madressilvas, gilbardeiras, alecrins, carvalhos, sobreiros, prímulas, sanguinhos, zelhas, sabugueiros, roselhas, abrunheiros-bravos, armérias, sanganhos, sargaços, zimbros… Possuo várias dezenas de espécies autóctones no meu jardim, algumas delas endémicas, existentes em espaços muito limitados, como é o caso da Armeria trasmontana, apenas existente no NW da Península Ibérica. As nossas plantas, por nós desprezadas, têm lugar de destaque em países estrangeiros - para os ingleses o rosmaninho é a Lavanda portuguesa!
Sobre os meus muros de pedra plantei várias espécies rupícolas, de que os seduns são apenas um exemplo.
O arquiteto português Gonçalo Ribeiro Telles, foi distinguido com o 'Nobel' da Arquitetura Paisagista, o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe. Nos seus projetos as plantas autóctones têm lugar de destaque.
Como as minhas plantas estão naturalmente adaptadas às condições climatéricas e de solo da região duriense, sem necessidade de rega o meu jardim é verdadeiramente ecológico. Relva não tenho – o meu prado natural, limpo e cortado após florir, mesmo que seco no verão enquadra-se no ambiente natural da Europa do Sul, onde nos encontramos.
O meu jardim autóctone também é um jardim-dos-sentidos, evoluindo com as estações. Vejo não só as flores, como os insetos que sobre elas esvoaçam, os répteis, os anfíbios e os mamíferos que comigo partilham o espaço. Ouço as rãs que sem terem sido convidadas povoam o meu lago. Como e sinto o gosto dos medronhos. Embebedo-me com o cheiro das madressilvas. Gosto de tatear o tronco das árvores. Alegra-me saber do valor medicinal de muitas das nossas plantas.
À riqueza florística do meu jardim adiciona-se a riqueza faunística, pelas relações que as plantas autóctones estabelecem com os animais, fornecendo-lhes alimento e abrigo.
Respeitosos cumprimentos e felicidades para a iniciativa.
Rafael Carvalho / jun2014